Conheça a história do diretor do filme sobre Aury Bodanese
Era um menino magro, de olhos atentos e passos apressados pelas ruas de Faxinal dos Guedes. Entre o barulho dos picolés batendo na caixa de isopor e o apito do ônibus na rodoviária, ele carregava um sonho que ninguém ali podia medir: contar histórias para o mundo.
Osnei de Lima nasceu em Erval Grande/RS, no fim de um dezembro quente de 1974. Filho de Eva e José Vilmar, cruzou cedo as estradas de terra do Rio Grande e de Santa Catarina, até encontrar, em Faxinal, o cenário que moldaria seus primeiros atos.
Na Escola Básica Professor Salustiano Antônio Cabreira, descobriu que letras e palavras podiam abrir janelas. Fora dali, a partir dos 12 anos, aprendeu com o suor: ajudava nos treinos de vôlei, capinava lotes, limpava açudes, plantava grama. Mas, enquanto os pés pisavam o chão, o olhar já buscava as estrelas.
Foi num palco improvisado que veio a primeira faísca. A peça A Menina e o Vento, dirigida por Neri de Paula, atravessou o coração do adolescente como um clarão. Somaram-se a isso as fitas VHS de Teixeirinha, as gargalhadas dos Trapalhões e a certeza de que a vida podia caber dentro de uma tela.
Em 1989, aos 14 anos, fundou o grupo teatral Poliart Produções Artísticas. Mas teatro era só metade do sonho — ele queria filmar. E para filmar, precisava de uma câmera. Entrou num consórcio, entregando quase todo o salário conquistado na Sadia. Na quinta parcela, veio a carta: havia sido sorteado. Lembra até hoje do frio no peito e da respiração suspensa ao abrir o envelope.
Com a nova Gradiente GC 160 em mãos, reuniu amigos, improvisou microfones, trilha sonora e partiu para Nova Sarandi. O filme, que deveria ser de terror, acabou virando comédia. A plateia aplaudiu de pé. Era o primeiro “ação!” de muitos que viriam.
Dois anos depois, um novo roteiro, mais ousado: cem páginas, três dias de filmagem sem pausa. O público crescia, e Osnei entendia que sua vida estava ali — entre câmeras, luzes e pessoas dispostas a viver personagens.
Em 1993, mudou-se para Erechim. Sem a carteirinha de ator que lhe abriria as portas do teatro, decidiu criar seu próprio caminho: o cinema. Em 2000, lançou O Come Gente, primeiro filme genuinamente erechinense. Lotou sessões, apareceu no Fantástico, foi ao Programa do Jô e levou o prêmio de Melhor Filme Júri Popular no Festival de Gramado.
Vieram outros prêmios, outros festivais. Em 2002, o reconhecimento da APTC. No ano seguinte, o desafio de contar a história do assassinato de Tim Lopes, competindo com produções brasileiras e latino-americanas. A consagração já não era um sonho distante — era realidade.
Em 2005, iniciou nos longas. O remake de O Come Gente, agora com Bárbara Paz, abriu as portas para trabalhar com Humberto Martins, Gracindo Júnior, Débora Duarte e tantos outros rostos conhecidos da televisão e do cinema. Vieram participações de Ana Maria Braga, Roupa Nova, Dalvan. E as fronteiras se alargaram até a Itália, com três longas e um curta, e homenagens em Forno di Zoldo e Longarone.
Mais de cinquenta filmes depois, Osnei é também autor de três livros, compositor de dezenas de letras, pai de dois filhos e guardião das memórias de onde tudo começou. No mate compartilhado com amigos, costuma dizer:
“O reconhecimento não é só meu. É da equipe, é de cada um que acreditou junto. É o laço que mantém a chama acesa.”
Hoje, ele ainda carrega o mesmo brilho nos olhos de 1989. O mesmo que sentiu ao olhar pela primeira vez através da lente de sua primeira câmera. E talvez seja esse o segredo: nunca deixar que o peso das dificuldades apague a luz do sonho.
Porque, no cinema — e na vida —, a cena só termina quando o coração diz: corta.
“Antes do Nascer do Sol”
A vida e o legado de Aury Luiz Bodanese chegam às telas de cinema
Chapecó se prepara para revisitar um dos capítulos mais marcantes de sua história. A vida de Aury Luiz Bodanese (1934–2003), um dos maiores nomes do cooperativismo brasileiro, será contada no cinema em Antes do Nascer do Sol, produção que promete emocionar e inspirar ao narrar a jornada de um homem que transformou a realidade de milhares de agricultores no Sul do país.
Neto de imigrantes italianos, Aury nasceu em um período de profundas mudanças no Brasil rural. Reconhecido internacionalmente como exemplo de liderança, tornou-se símbolo de um modelo cooperativista que ultrapassa fronteiras, guiado pela solidariedade e pelo trabalho coletivo.
O longa será dirigido pelo cineasta gaúcho Osnei de Lima. Atualmente, o projeto está em fase de captação de patrocínios, já aprovado pela Ancine por meio da Lei do Audiovisual do Ministério da Cultura. O lançamento está previsto para 2027.
A narrativa terá início muito antes do nascimento de Aury, com a saga de seus avós italianos. Fugindo dos impactos da guerra, eles cruzaram o oceano em busca de um recomeço no Brasil. Esse pano de fundo histórico abre caminho para a história de um menino de infância simples, que enfrentou desafios desde cedo.
Aos 11 anos, Aury vendia bananas e jornais. Aos 15 já trabalhava como motorista de caminhão. A estrada o ensinou disciplina, coragem e persistência — virtudes que, anos depois, seriam decisivas para seu maior feito: assumir a presidência, em 1967, da CooperChapecó, renomeada como Cooperalfa em 01/01/1975, após se unir à CooperXaxiense. Em 15 de Abril de 1969, foi um dos responsáveis pela criação da Fricooper, hoje AuroraCoop, que figura entre as maiores exportadoras de proteína animal do Brasil, hoje reconhecida mundialmente.
Em julho de 1975, criava um projeto fabuloso de intercooperação, a FECOAGRO, unindo as cooperativas agropecuárias de SC para operar insumos mais baratos aos sócios. Em 16 de novembro de 1994, Aury estipulou o “banco próprio”, a CrediAlfa, hoje Sicoob/Maxicrédito, com mais de 260 mil cooperados.
Para Osnei de Lima, o filme vai além da biografia. “O impacto de Aury ultrapassa o cooperativismo. Ele tinha uma visão globalizada, enxergava 30 anos antes, uma liderança inabalável e uma mente criativa e organizada para superar qualquer barreira”, afirma o diretor.
A viúva, Zelinda Santa Catarina Bodanese, guarda na memória a resiliência do marido:
— Ele não desistia nunca. Se precisasse ir várias vezes a Florianópolis para conseguir um financiamento, ele ia. A frase que mais escutei dele foi: ‘Vai dar certo!’. E dava.
O legado de Aury é vasto. Ele foi peça fundamental na criação da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), da Organização das Cooperativas de Santa Catarina (OCESC).
O filme promete resgatar não apenas a trajetória pessoal e profissional de Aury, mas também a força de um movimento que mudou a história do agronegócio no Brasil. Ao revisitar sua vida, Antes do Nascer do Sol também será um tributo à persistência, à união e à capacidade de sonhar grande — valores que ainda ecoam no coração dos que conheceram Aury, trabalharam com ele ou se beneficiam de seu trabalho até hoje.
Como no título escolhido, a história revela que antes de cada amanhecer há um período de escuridão — mas, para aqueles que acreditam, a luz sempre chega. E Aury Luiz Bodanese foi, para muitos, a primeira claridade no horizonte, uma esperança firme nos propósitos, especialmente em favor dos pequenos e médios agricultores.





